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“Detroit” de Kathryn Bigelow

Kathryn Bigelow que nos habituou a um estilo de realização vertiginoso com uma montagem frenética e poderosa, arrasta-nos para a barra do tribunal durante o último ato do filme…

Mesmo compreendendo a relevância história do julgamento, o anti-clímax é demasiado comprometedor, ao ponto de retirar grande do apreço que podemos sentir pelo filme, até essa altura.

Doloroso, angustiante e imprevisível, os acontecimentos no motel Algiers retratados durante as quase 2h30 de filme, causam um indisfarçável desconforto e revolta nos espetadores. Bigelow coloca-nos literalmente contra a parede, indefesos e inseguros, enquanto tentamos antecipar o desenlace de um dos episódios mais marcantes da história do racismo (policial) nos EUA.

Construído de forma competentíssima e claustrofóbica, o filme não nos deixa muito espaço para respirar, mesmo que após o seu clímax se perca em considerações cinematograficamente irrelevantes. A mensagem política é inegável mas teriam sido tão melhor que o filme parasse ao terceiro… disparo.

Detroit, Michigan. 1967.
Múltiplos episódios de racismo e de revolta dos cidadãos negros da cidade (e um pouco por todo o país) transformaram a cidade de Detroit num verdadeiro campo de batalha. De uma lado a polícia (municipal, estadual e federal), o exército e um bando de idiotas fardados e com um distintivo legítimo. Do outro, o povo afro-americano cansado de injustiça e humilhação e uns quantos idiotas que os há em todas as raças, credos e gerações.
No Motel Algiers acorre um grupo particular de polícias locais, respondendo a uma possível ofensa por parte de uns quantos idiotas. O que se seguiu envergonhou para sempre a cidade e as instituições envolvidas.

O jovem Will Poulter no complexo papel do agente Philip Krauss é um dos grandes destaques do filme. A personagem não é agradável, de todo, mas o misto de desespero e convicção que o jovem inglês transmite a um dos agentes envolvidos no referido episódio pode garantir-lhe, no mínimo, uma merecidíssima nomeação ao Oscar de Melhor Ator Secundário. Temos ainda o ator/cantor Algee Smith, na sua estreia num grande papel no cinema, no papel do músico Larry Reed, uma das vítimas dos abusos policiais no Motel, e pela amostra temos talento para singrar. E, naturalmente, John Boyega. O rapaz de Star Wars ficou com o papel mais injusto, o do segurança Melvin Dismukes. Há margem da ação e do drama, John faz o que pode para convencer que o seu talento vai muito para além de Finn. Mas ainda não foi desta que afastou as nossas dúvidas quanto ao seu futuro numa indústria tão competitiva e exigente como a de Hollywood.

Bigelow volta a confirmar todo o seu talento, assim como Mark Boal – Oscar® de Melhor Argumentista por The Hurt Locker – mas aquela última meia-hora pode muito bem ter comprometido o percurso do filme na temporada dos prémios. Por ventura, localmente o seu impacto tenha outra dimensão, face aos repetidos relatos de abusos policiais e do racismo latente que ainda assola a sociedade norte-americana mas do ponto de vista cinematográfico, o filme ficou aquém das expetativas criadas em seu redor.

Neste momento filmes como Dunkirk ou Wind River estão claramente acima, nessa longa corrida até fevereiro.

Fica o relato, quase em jeito de documentário mas desconfortavelmente real e próximo.

   

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