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“Mudbound – As Lamas do Mississipi” Dee Rees


Pelo menos de entre os que já tivemos oportunidade de ver, trata-se do mais cru, viril e poderoso filme desta temporada dos prémios. Um daqueles filmes que nos enche de revolta, repúdio e indignação e que nos deixa desarmados e impotentes. Ainda assim, com uma mensagem bastante positiva, inteligente e esperançosa.

Se olhar para trás e reconhecer os próprios erros será uma espécie de ‘só sei que nada sei’ do séc. XX, então, estamos no caminho certo.

Dee Rees não tem pudor em retratar os dilemas e preconceitos tal como eles foram são e fá-lo com mestria e exactidão. Se o racismo era o mal maior num país que se dizia desenvolvido, não seriam apenas os negros as vítimas de uma cultura machista, xenófoba, individualista, capitalista e amplamente racista.

Se nos grandes centros urbanos, os afro-americanos lutavam pela igualdade de direitos, se além-mar eles lutavam pela liberdade (de todos nós), no mundo rural do sul dos EUA, lutavam pela sua sobrevivência. Lado, a lado, com muitos outros, independentemente da raça, credo, posição social ou sexo que pareciam condenados a uma existência predestinada.

Naturalmente, a cor da pele é o elemento central de uma narrativa assertiva e reveladora mas há muito mais para contar e que bela forma a realizadora oriunda do Tennesse encontrou para o fazer, ao adaptar o romance de Hillary Jordan.

Para além do argumento – justamente nomeado ao Oscar de Melhor Argumento Adaptado – contribuí decididamente um elenco irrepreensível. Destaque maior para Gareth Hedlund (continuo sem perceber o porquê do rapaz ainda não se ter tornado num estrela de Hollywood), Jason Mitchell, Jason Clarke e Carey Mulligan, num misto de emoção, razão, esperança e desespero. Em paralelo, um trio de fantástico atores, Jonathan Banks, Rob Morgan e a cantora Mary J. Blige, justamente nomeada ao Oscar de Melhor Atriz Secundária, que dão força, presença e contundência a uma história desconcertante.

Quando Jamie (Hedlund) e Ronsel (Mitchell) voltam ao Mississippi após longo anos de batalha na Europa, os seus corações, mentes e hábitos não estão, de modo algum, preparados para lidar com a nova (e antiga?) realidade das suas vidas. Jamie sempre foi um bon-vivant que vive da bondade do irmão (Clarke) e cunhada (Mulligan) e do desprezo do pai (Banks). Ronsel cresceu a trabalhar a terra, de forma humilde e súbdita, mas por muito respeito que tenha pelo seu pai (Morgan) e mãe (Blige) não consegue perceber a escandalosa diferença de costumes entre o povo europeu e norte-americano. Mas esta não é apenas a história de dois ex-combatentes da II Guerra Mundial, é também a de um casal que pretende ser realmente livre, de uma esposa que ambiciona mais do que os seus sonhos cor-de-chocolate, de um velho com ideais medonhos.

Cobertos de lama, estas duas famílias são um retrato de toda uma região inundada de preconceitos, ignorância e tacanhez. De um povo que se dizia desenvolvido mas que é capaz das mais atrocidades, de um Homem que quer mudar o mundo, um dia de cada vez.

Uma última palavra para o trabalho de Rachel Morrison que se tornou na primeira mulher a ser nomeada para o Oscar de Melhor Fotografia. Irrepreensível.

Arrisco a dizer que noutra altura, em que a segregação racial estivesse (mais) na ordem do dia, e teríamos em mãos material para outros voos… e prémios! Mas as barreiras continuam a cair, seja relativamente ao sexo, cor da pele, convicções religiosas ou sexuais. Esperemos apenas que com idêntico (ou maior!) estrondo do que causaram quando foram “erguidas”!

Um filme a não perder!!

  

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