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“Dor e Glória (Dolor y gloria)” de Pedro Almodóvar

Há uma subtileza e poesia muito próprias do cinema de Almodóvar que prende o espetador até ao último segundo, independentemente do grau de atratividade que cada um dos seus filmes possa ter.

Já vimos grandes histórias e grandes revelações. Já vimos simples apontamentos transformarem por completo a história de um filme. Curiosamente, Dolor y gloria foge a ambos os paradigmas.

O argumento de Almodóvar, com a recorrente autoficção (que a dada altura o próprio Salvador Mallo destaca), avança de forma bem gradual e harmoniosa. Recorrendo a constantes flashbacks, vamos conhecendo os principais episódios da vida de um bastante jovem (e não só!) Salvador e a forma como influenciaram o seu crescimento e a sua personalidade.

É, então, de forma gradual que o filme evoluiu construindo um protagonista palpável e com uma densidade extraordinária. À medida que Almodóvar vai depilando as muitas camadas de Salvador, percebemos que há algo de muito familiar no realizador. Algo que nos faz lembrar o próprio cineasta e a sua obra.

Mais do que uma vez vemos excertos da obra do realizador espanhol e da sua vida. Educação. Desejo. Mãe. São estas algumas das palavras chave da sua obra e, acreditando no próprio da sua vida.
Autoficção acaba, assim, por ser a palavra chave do filme. Almodóvar assume-o literalmente, colocando a expressão do seu alter ego neste Dolor y gloria. E percebemos que grande parte do seu repertório vive exatamente desse conceito, i.e. pegar em episódios autobiográficos e dar-lhe uma nova roupagem, quiçá mais apelativa e dramática.

Salvador Mallo (Banderas) é um realizador em plena crise. Mais existencial do que propriamente criativa, partilhando com o seu autor alguns episódios que marcaram a vida de ambos, personagem e cineasta. Fisicamente debilitado e emocionalmente destruído, Salvador acaba por encontrar conforto no mais improvável das soluções. Até se encontrar com si próprio.

Para lá de considerações mais humanas ou sociológicas, o filme vale, sobretudo, por um Antonio Banderas ao seu melhor nível. Um desempenho difícil, sem grandes muletas, mas que vive dessa contenção e desespero que a história precisava. Nesse aspeto, definindo o tom e marcando os ritmos do próprio filme, a banda-sonora de Alberto Inglesias pode estranhar-se, mas entranha-se, seguramente!

Almodóvar não é só um grande realizador pelo trabalho que desenvolve mas, também, pela capacidade e astúcia em se rodear de gente bastante talentosa e disponível, Nesse sentido, para além dos nomes referidos, destaque também para um trio de atores que a cada momento eleva o filme para níveis superiores: Penélope Cruz (no papel de mãe do pequeno Salvador) e a dupla Asier Etxeandia e Leonardo Sbaraglia.

Confesso a minha curiosidade, mas, também, o meu desalento, ao perceber que Almodóvar constrói o argumento tendo bem presente a sua própria obra e a sua vida. E para quem o realizador espanhol é mais um mito do que cineasta habitual, fica a sensação que faltou conhecimento (da obra e vida) para compreender plenamente o conteúdo do filme.

Relativamente à forma, nada a apontar!

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