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“Marriage Story” de Noah Baumbach

Há 40 anos Meryl Streep e Dustin Hoffman protagonizaram um filme que marcou uma geração e foi idolatrado pelos seus pares e pelo público.
Ao longo dos anos, o filme de Robert Benton foi sendo elevado ao estatuto imortal e intemporal. Uma lição de representação, uma mensagem familiar, um filme retrato. Arte no seu estado mais puro. Kramer vs Kramer.

Noah Baumbach, Adam Driver e Scarlett Johansson reescreveram a história do cinema em 2019. Assim como a Netflix se tem vindo a preparar para fazer, no que à distribuição de cinema diz respeito. Mesmo sem termos noção exata das suas consequências.

Tal como em 2012 – com Silver Linings Playbook – o resultado “natural” seria o quinteto maravilha. Filme, realizador, argumento, ator e atriz principais. Claro que nesse mundo (im)perfeito de 2019, não existia a Judy de Renée Zellweger ou o Joker de Joaquin Phoenix. Mas isso são contas de outro rosário, como se dizia antigamente.

Já muito se tem escrito – sobretudo por anónimos apaixonados pelo filme e pela vida – sobre a capacidade de Baumbach em retratar cada um de nós, na sua descrição de Charlie e Nicole. Para mim, porém, o ponto-chave está noutro detalhe ainda mais contundente. Durante as mais de 2h00 em que acompanhamos o desfazer de um relacionamento (e não de um Amor, entenda-se!), é impossível tomar partidos, criticar, duvidar ou corrigir.

Cada ação, cada palavra, cada expressão e respetivas reações, levam-nos sempre a um impasse, a um empate. Nesta realidade, em que nada é preto ou branco, tudo é autêntico e tão natural ao ponto de ser banal.

Não há heróis, nem vilões. E num mundo recheado de Kylo Ren’s e Black Widow’s é desarmante que assim seja. Somo levados a refletir, a questionar, a avaliar – como aliás acontece com todo e qualquer filme do realizador/argumentista de Frances Ha ou While We’re Young – mas, desta vez, somos premiados com a mestria da sua autenticidade e da sua imparcialidade. A história faz de nós testemunhas, mas impede-nos de sermos juízes… em causa alheia.

Charlie (Driver) e Nicole (Johansson) viveram um casamento intenso, feliz e profícuo, tanto em termos profissionais como pessoais. Mas chegaram a um ponto de não retorno. Ela pretende regressar à Califórnia e prosseguir a sua carreira de atriz. Ele espera manter-se em Nova Iorque, num momento em que a sua peça mais recente está prestes a estrear na Broadway. E têm um filho.

Ao longo de duas horas assistimos ao terminar de um casamento, não necessariamente de uma relação. Mas, por entre advogados, egos feridos e desejos enclausurados, muitas verdades (e algumas mentiras) virão à tona. Nós, para além de vivermos essa história e de, obrigatoriamente, fazermos o paralelismo com as nossas vidas e de quem nos rodeia, acabamos por ficar rendidos a uma peça de arte maior do que o próprio cinema.

A sala era pequena, minúscula para um filme desta dimensão. Ao ponto das paredes terem cedido à medida que a história saía da tela e invadia cada um de nós e as ruas de uma cidade fria que servia de (pouco) aconchego a duas almas perdidas, por entre milhões de outras.

Foi cinema. Do MUITO bom!

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