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“Nomadland – Sobreviver na América” de Chloé Zhao

A poesia pela poesia não é propriamente o mais atraente dos géneros literários.

Sem conteúdo, sem ação e sem grande emoção, por muito bonitas que as palavras soem, o prazer será quase sempre efémero. Haverá sempre uma mensagem sublime, preciosa e geralmente ambígua. É arte, caros cinéfilos. Mesmo correndo o risco de ser altamente aborrecido para a larga maioria.

Por esta altura já devem ter percebido onde quero chegar. A visão de delicada de Chloé Zhao sobre os novos (ou velhos) nómadas norte-americanos que percorrem o país em busca de trabalho é poeticamente deslumbrante. Recheada de silêncios, pausas e indiscutivelmente das imagens ou paisagens mais marcantes dos últimos anos, Nomadland é poesia sob a forma de um filme.

Claro que na larga maioria do tempo, parece pouco mais do que um sentido documentário protagonizado por uma fantástica MacDormand. A malta mais entradote associará sempre Frances à chefe da polícia Marge Gunderson de Fargo, mas os mais novos também não ficam mal servidos com Mildred Hayes de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri.

Fern é a vida e alma deste Nomadland. E se há elemento que eleva o vencedor do Oscar de Melhor Filme, é a sua alma. Justíssima a sua 3ª estatueta, mesmo que não fosse de enjeitar a atribuição do prémio a Viola Davis, por exemplo. Num registo bastante típico da agora veterana atriz, que os anglo-saxónicos designariam de grumpy, o contraste entre a beleza e leveza das paisagens e a dureza da sua personagem viúva, desamparada e sem-habitação, formam a química perfeita.

No restante do filme, vemos nómadas reais, a interpretar nómadas fictícios, mas como é perceptível a olhos vistos, a contar as suas (ou as de outros) histórias verídicas. Chega a doer, mas não haveria outra forma.

Fern é uma das últimas habitantes de Empire, Nevada. A fábrica onde o falecido marido trabalhava encerrou e a vila extinguiu-se. Sem rumo e sem dinheiro, Fern abandona a sua casa e a sua vida para encontrar empregos precários e temporários. Num desses empregos tem o primeiro contacto com a comunidade nómada à que se juntará mais tarde no Arizona, onde o espiritual Bob Wells dá conforto e comida a um grupo (na sua maioria de seniores) que faz da estrada e da sua caravana, o lar.

Daí percorremos a América profunda com eles. Dessa “reportagem” ficam imagens belíssimas e uma “estranha forma de vida”. E 3 Oscars!

É poesia!
Mas bem que podia ser um bocadinho mais do que isso…

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