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“A Odisseia (L’Odyssée)” de Jérôme Salle

Há toda uma nova geração que nasceu na era dos portáteis, dos smartphones e da TV com mais de cem canais que não faz a mais pequena ideia de quem foi Jacques Cousteau.

É uma pena que assim seja!

Quem nasceu e cresceu na década seguinte à nossa revolução dos cravos (e anteriores) sabe muito bem o que é acordar cedo no fim-de-semana e, terminados os “bonecos”, deliciar-se com as intrépidas aventuras e descobertas de Jacques Cousteau e da sua tripulação. Os mares, inacessíveis para milhões de espetadores por todo o mundo, passaram a entrar-nos pela janelinha mágica todas as semanas.

Cousteau, essa personagem mítica da oceanografia e do mundo animal em geral, construiu um império em seu redor. Seguiu o seu sonho do pós-guerra e tornou-se num dos mais reputados e premiados exploradores da nossa era. Porém, por detrás do mito, havia um homem… e uma família tão comum como qualquer outra.

Para o espetador comum, Jacques-Yves Cousteau era praticamente um desconhecido. Para além da figura esguia, envelhecida pelos ares do mar, e do seu carismático barrete vermelho, pouco mais se sabia do homem por detrás da TV.

Jérôme Salle dá-nos a conhecer, sem filtros, quem foi afinal JYC, a sua família, a sua vivência e a sua verdadeira essência.
De forma por vezes cáustica e, até violenta, o retrato do velho lobo-do-mar (que faz parte do imaginário coletivo de muitos de nós) é substituído, sem contemplações, por o de um homem determinado, visionário, egoísta e volátil. No fundo, um homem virtuoso mas que para lá das câmaras, tinha os seus inquestionáveis e reprováveis defeitos.

Jacques e Simone (Lambert Wilson e Audrey Tautou) tinham tudo. Património, status social e o dinheiro e reconhecimento da invenção do primeiro escafandro portátil – tão simples como uma botija de ar, um tubo e uns óculos a tapar o nariz. A família Cousteau vivia na Riviera francesa, numa casa sobre o mar, onde amigos e familiares se deliciavam com os primeiros filmes subaquáticos que Cousteau produzia juntamente com os seus amigos da Marinha.
Mas não era, de todo, suficiente. Jacques tinha um sonho, o de explorar as belezas da profundura do mar. Esse sonho passou a ser o seu motivo de viver e de toda a sua família. A bordo do Calypso, os Cousteau partiram à descoberta de um novo mundo… e de si mesmos.

Mas ao contrário das expetativas e da imagem romanceada que tínhamos dos intervenientes, o filme segue duas histórias em paralelo: a vida no mar e a sobrevivência em terra, onde a incessante necessidade de encontrar novos financiadores era a primeira e única(?) preocupação. Curiosamente JYC surge quase sempre neste segundo plano, de fato e maleta, no lugar do seu carismático barrete vermelho.

Essa presença desconcertante leva-nos inclusive a duvidar do desempenho de Lambert Wilson. O mais anglo-saxónico dos atores franceses faz um retrato consistente e seguro de Jacques Cousteau mas de modo algum aquele é o explorado que nos “conhecíamos”. Dito isso, maior destaque para Tautou, no papel da inquebrável Simone e para o mais jovem Pierre Niney, como Philippe, o filho mais jovem e irreverente do casal.

O filme segue um pouco sem rumo. Recupera alguns dos episódios mais marcantes da vida sobretudo familiar, do velho lobo-do-mar, negligenciando quase por completo os seus feitos e as suas descobertas.

Talvez a realidade nem sempre seja assim tão bela como a queremos imaginar…
…mas, ainda assim, não me parece que esta tenha sido a forma mais justa de homenagear o lendário explorador.

  

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